Não gosto de futebol

                                                                  Adalberto dos Santos

       Nunca fui bom de bola. Das coisas de que me ressinto não ter praticado na infância está o futebol; arrependo-me de não ter corrido nos campos do Higino Pires, na quadra do Colégio Estadual ou no famoso “Vilin” de meu tempo - como fez a maioria dos meus amigos. Limitei-me, quando muito, a pequenas peladas de fim de tarde na própria rua onde morava (sem poder sair de lá, a custo de puxões de orelha e outros castigos) e a poucas partidas noutros campos em situações não muito diferentes das peladas da rua.
      
Pior que os puxões de orelha era a esquisitice de muitos dos moradores que não me queriam para o futebol. Lembro de uns três que rasgaram todas as poucas bolas que tive. A primeira ganha com muito esforço, “pastorando”, como a gente diz aqui, o leite de uma das minhas primeiras professoras, Dona Tica, que saía de manhã para dar aulas e me deixava responsável por comprar seu leite ao Miguel da Burra Branca. No final das contas, levei uma oval para casa, que havia muitas naquele tempo. Mas jogar dentro de casa é muito ruim, por isso tirei a bola do saco e dividi com os amigos. Nas primeiras brincadeiras quebrou os óculos de uma tiazinha (senhora, velhinha solteira e nada camarada – não uma gostosa e sarada como a da tevê). Virou trapo de fazer remendo em balde furado. A senhora dona (que não digo o nome porque já morreu) tinha unhas de rasgar bola de plástico. Sério, rasgou com as mãos a bola e nervosa ainda fez um gesto pouco digno de sua idade que valeu por milhões de impropérios. Perdi minha querida bola oval.
       Tive outra bola (e uma dezena, talvez, em minha excêntrica carreira de "jogador"), ganha como um presente em troca de boas notas no fim do ano. Essa desceu a ladeira da Padre Anselmo e acertou de cheio as pernas do homem que fazia bolo, das pernas à sala de entrada da sua casa, dali para ali mesmo, nunca mais vi a bola. Depois disso, bolas só de meia com enchimento de molambos colhidos do resto de costura de minha mãe. Pelo menos após perdê-las a gente não via os seus pedaços no chão. Se sumiam, sumiam inteiras, como a que entrou na casa de Seu Odízio, o homem do bolo. E só prestavam pra jogo em cima da calçada, e se lisa como o piso do pátio da velha escola.
       Mas de plástico ou de meia, sempre fui um péssimo jogador. A bola nunca foi minha especialidade. Perna-de-pau, desconjuntado, bicho ruim, peladeiro, e por aí vai. Era o que diziam de minha performance com a bola. Uma vez um amigo, o Mauro, disse certo me vendo jogar: Cara, tu não tem coordenação motora; esquece. E tinha razão, meu pé esquerdo era pior do que o direito, o direito pior do que o esquerdo; os dois juntos um desastre. A bola não me obedecia como fazia aos outros amigos. Aliás, todos, de uma certa maneira, se tornaram bons jogadores, menos eu. Menino grudado à barra de saia, fui educado para a servidão da leitura e das brincadeiras no quintal. Por causa disso, talvez, tenha tido pouco sucesso com o futebol. Demorei a sair pras quadras e campos perto de casa onde os outros meninos iam a qualquer hora. Lá se aprendia mais fácil a prática do esporte.

(CONTINUA... >>>>>>)



 Passarim Camarada - 19h41
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           No início era assim. Todos os meus colegas corriam pela rua com suas bolas Canarinho (o desenho do Zico e a cor alaranjada de interior de jerimum), enquanto minha mãe me dizia: Olhe daqui mesmo, que já é grande coisa. O aqui eram os limites da calçada onde colocava uma cadeira todo final de tarde e lia os primeiros livros. Os meninos corriam para lá e para cá como calangos felizes no meio do mato. Vez ou outra aparecia o sinal de que um “topava” o dedão do pé num buraco de paralelepípedo: o grito corria pela rua. Depois saí da reserva, deixei a cadeira de lado e entrei na onda do jogo de rua. Aí, vocês sabem, tive aquelas experiências.
      
Quando fui pro “Vilin”, pro Higino e outros campos, já era tarde. Os apelidos como os de perna-de-pau vieram aos montes. Me barraram. Na verdade, só poucas vezes joguei na quadra do Crispim Coelho. Lá havia uma norma: os pernas-de-pau, se quisessem jogar, teriam de passar pelo campinho de terra. Com o tempo formariam time no jogo de salão. Conto as vezes em que formei time. Foram duas, minha Deusa?! Não lembro. Sem talento pra coisa, baixava a cabeça e obedecia: Vai jogar futebol de botão, menino!
      
Fui. Numa partida quase me perdi, quase fico louco de tanta raiva. Meu adversário ganhava de não sei quanto e só não dei um assim na sua orelha porque sabia perder. Mas desmanchei a graça da vitória dele e saí de sua casa decidido a nunca mais gostar de futebol; pelo menos a não lhe dar muita atenção durante a vida.
      
É o que acontece hoje em dia. Pareço não ter o mínimo de interesse pelo esporte. Os times vão e vêm e não tenho o menor prazer com os campeonatos - as vitórias de clube e as famas dos astros relâmpagos que se fabricam num e noutro time ano a ano não me interessam; as notícias esportivas também. Se pego um jornal, vou direto ao caderno de cultura; posso até ver outros assuntos, mas esporte, never! Tenho por companhia um São Francisco de Assis em resina e um monte de cd na estante toda vez que tem jogo na tv. Digo que torço pelo Flamengo, mas só pra agradar alguns amigos e para não parece tão idiota.
       Sei que, para os adeptos, futebol é como pensa o Dorival Caymmi sobre o samba – quem não gosta, ou é ruim da cabeça ou doente do pé. Deve ser o meu caso, afinal nunca fiz um gol em toda a minha a vida – nem chutando nem cabeceando uma bola. Cabeça tenho pra outras coisas – escrever besteiras, por exemplo, enrolar gente na conversa, essas coisas. Os pés são pra pisar terra úmida em manhãs de inverno. Minha boca jamais gritou gol!!!. Sabe é dizer: não gosto de futebol, não sou bom de bola, nunca fui. Assim como nunca fui modestinho, menino bem comportado.
      
Tem uma canção do Raul Seixas que diz o que acontece comigo nessa onda de esporte, de futebol especialmente, coisa que é o apito pra encerrar esta crônica. Acho que é assim: “Desde aquele tempo enquanto o resto da turma se juntava pra jogar bola, eu pulava o muro com Zezinho no fundo do quintal da escola...”
       Eu sempre estive lá...



 Passarim Camarada - 19h25
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